Porto Seguro
Era madrugada quando acordei e chovia que Deus a dava. Não sei quantos anos teria, os meus pais pareciam preocupados mas, com uma rapidez que hoje seria impensável, voltei a adormecer.
Publicado originalmente no Porto24, recuperado graças ao blogue Kosta de Alhabaite
O pátio que estava em frente das casas térreas do Bairro Ignez era inseguro mas não parecia. Quando lá jogávamos à bola, quando o Toninho montou a primeira rede de Badmington e saltávamos para o smash, quando o meu irmão acelerava com a sua moto de brinquedo: Quando passeávamos e brincávamos pelo pátio do Bairro aquilo era o local mais seguro do mundo. As velhas tomavam conta de todas as crianças, um muro separava-nos dos 10 metros de altura do campo de vinhedos que o senhorio insistia em ter lá em baixo.Mas um dia, naquela madrugada, a água da chuva foi tanta, as correntes que desciam desde a rua da Restauração eram tão fortes que o pátio, o muro, os portões, as soleiras das portas das casas térreas, as portas das casas de banho (que ficavam higienicamente fora de casa), a macieira da minha mãe, as galinhas da vizinha, o jardim florido dos mudos que viviam ao nosso lado… tudo desapareceu. Tudo menos as casas, o histórico bairro manteve-se; e as pessoas, não houve vítimas.
O mau tempo faz sempre das suas, ainda nas últimas semanas percebemos como destruiu outros pátios, deitou abaixo outras árvores, atapetou muitos jardins.
Na década seguinte, a minha família e outras, melhorando os seus meios de subsistência, acabou por se mudar para os subúrbios, para casas mais seguras e com um conforto que o Bairro Ignez – malgrado a sua localização e as suas vistas – não oferecia, e ele foi-se esvaziando. A recuperação económica do país parecia estar a ditar a desertificação do histórico espaço.
Aquela zona ia sendo esquecida, com o fecho das fábricas e oficinas da rua da Restauração, do comércio e dos serviços de Massarelos e devido à proximidade da então “problemática” Miragaia (anos 1980). A rua de Sobre-o-Douro – topónimo que como conta Cunha e Freitas na “Toponímia Portuense” surge no registo paroquial de Massarelos pela primeira vez em 1743 – não tinha outro atrativo a não ser o preço das rendas. Por isso, só foram ficando os velhos, inseguros mas audazes, eles que tinham já passado por tanto.
Alguns deles teriam até conhecido ainda os descendentes do “capitalista Ignês Martins Guimarães” que comprou o bairro que ocupava uma parte do antigo Convento de Monchique ao Conde de Burnay. O senhor Ignês transforma, pela mão de Inácio Pereira de Sá, “a fábrica num bairro para os operários que trabalhavam nas diversas indústrias que estavam localizadas nesta zona da cidade”, como conta o caminhante César Santos Silva.
Entretanto, o Bairro Ignez foi redescoberto. A recuperação do espaço operada por uma equipa dirigida pelo arquiteto Fernando Távora ditou o repovoamento, inicialmente por jovens e arquitetos que se instalaram nas casas que iam vagando; mais tarde foi residência de alunos de Erasmus. E o que vejo do Bairro Ignez hoje, à distância, são as entradas na pesquisa do Google: “Bairro Ignez Apartments”, “Oporto City flats” e o hostel, entre outras. A minha residência, o “Casa 3″, até aparece como referência no site Tripadvisor brasileiro.
Hoje, no velho bairro operário, ainda vivem alguns velhotes (a Joaninha, por exemplo, minha ama), profissionais liberais, alguns estudantes de Erasmus e turistas que procuram os “hostel flats” com “uma vista única sobre o Douro”.
O meu velho bairro, onde os velhos vizinhos ainda se encontraram para, literalmente, “ver os aviões” (quando houve as Red Bull Air Races) ou para aproveitar a folia a rodos nas vésperas de S. João, é hoje, com os diferentes moradores e hóspedes das suas 23 casas, um retrato do cosmopolitismo do Porto. Do novo Porto. Esperemos que um Porto seguro.
19:38 - 09.11.2011
Ruas que têm históriaRua da Bandeirinha: Um balcão sobre o Douro

Foto: César Santos Silva
A setecentista rua da Bandeirinha é a continuação natural da rua de Sobre-o-Douro que, no dizer de alguns autores, era o local de passagem da antiquíssima estrada romana descrita no famoso itinerário de Antonino (Via Vetera).
A rua da Bandeirinha deve o seu nome à bandeira da saúde que estava colocada em frente à Casa das Sereias e tinha como função avisar os barcos que demandavam o Douro da necessidade da vistoria sanitária (tempos de peste…). Hoje é uma artéria sossegada, com pouco movimento, que nos remonta para outras épocas e onde a marca judaica apenas sobrevive na toponímia das cercanias.
O principal ex-libris da rua é o já citado Palácio das Sereias, que é assim designado por causa das 2 sereias de granito que nos dão as boas vindas à entrada do edifício. Pertenceu à família Cunha Osório Portocarrero, até aos anos 50 do século XX, altura em que foi vendido ao Instituto das Filhas da Caridade Canossianas Missionárias. Junto ao palácio ficava o Hospital Inglês, pertencente à colónia britânica. No número 45, viveu o Dr. Gonçalo Sampaio, botânico e musicólogo.
A rua termina no largo do Viriato, local onde outrora existiu a casa nobre dos Morais e Castro (Manuel Mendes Morais e Castro foi agraciado em 1836 com o título de Barão de Nevogilde, pelos serviços prestados à causa liberal), que ali viviam antes de se mudarem para o Palácio dos Carrancas, construído em 1795 (hoje é o Museu Nacional Soares dos Reis).
Como nota de curiosidade, nas cercanias da rua da Bandeirinha, e já no Monte dos Judeus, existe uma fonte que para ali foi trazida do demolido Mercado do Peixe que ficava onde hoje se encontra o Palácio da Justiça.

Este edifício oferece um balcão sobre o Douro
Se por acaso visitarem a rua da Bandeirinha, reparem num edifício amarelo que fica ainda na rua de Sobre-o-Douro nº.12 e que tem escrito o nome de “Vila Ignez”. Entrem na porta que dá acesso ao edifício (é uma espécie de bairro particular) e poderão sentir que estão num verdadeiro balcão sobre o Rio Douro.
Pertenceu ao Conde de Burnay (que o comprou a um industrial que tinha aqui uma serração com o nome sugestivo de União Industrial Portuense), que o vendeu em 1889 a um capitalista de nome Ignês Martins Guimarães. É este industrial que vai transformar a fábrica num bairro para os operários que trabalhavam nas diversas indústrias que estavam localizadas nesta zona da cidade.
Depois de um período de decadência e já nos anos 90 do século XX, o arquitecto Fernando Távora lidera uma equipa que o reabilitou e hoje é um caso de sucesso, já que é local de residências para diversas famílias já idosas e também jovens do programa Erasmus.
As ruínas que ficam aos vossos pés são o que resta do Convento de Monchique imortalizado por Camilo no “Amor de Perdição”.
Como podem ver, apesar de pequena, a rua da Bandeirinha encerra em si motivos mais do que suficientes para uma visita. É um dos recantos mais agradáveis da nossa cidade.
César Santos Silva é investigador e divulgador da História do Porto e de Portugal. Nesta colaboração com o Porto24, conta as histórias de algumas ruas do Porto.


