Os sillies da season

Estou há uns meses à espera que chegue agosto para que algum meio de comunicação vá a Cabanas do Viriato, a terra de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português de Bordéus.

PUBLICADO ORIGINALMENTE A 29082015 NO PORTO24, VIA ARQUIVO.PT

Nem tudo é necessariamente pior na comunicação social durante a chamada “silly season”. A diminuição do ruído pode deixar espaço na agenda para que os jornalistas possam fazer a cobertura de temas e situações que, numa outra época do ano, são postas de lado pela falta de meios e pessoas para fazer reportagens de outros assuntos. Cito um exemplo: estou há uns meses à espera que chegue agosto para que algum meio de comunicação vá a Cabanas do Viriato.
Cabanas de Viriato é a terra de Aristides de Sousa Mendes, foi lá que nasceu e é lá que está a casa da família do cônsul português de Bordéus que, numa ação desafiadora ao governo de Salazar, emitiu milhares de vistos a refugiados da França, em 1940, muitos deles judeus. Ao longo de décadas, a sua Casa do Passal foi-se degradando e esteve quase a cair, como um sinal do desrespeito do Estado português pelo seu património e a nossa memória coletiva. Até que começa a recuperação do imóvel e, neste momento, a casa parece outra.
E essa era a reportagem que gostaria de ler. Pode ser que na próxima quarta-feira, dia 26, quando o secretário de Estado da Cultura visitar o local, haja espaço na imprensa e os portugueses em geral consigam finalmente perceber como evoluiu (e não tombou) aquele património importante para a memória e a nossa história do século XX.
Não houve reportagem em Cabanas do Viriato mas Aristides de Sousa Mendes apareceu na “silly season”, pois o atual embaixador de Portugal em Buenos Aires conseguiu suspender uma homenagem ao malogrado colega – prevista para 26 de junho com o descerramento de uma placa e o plantar de uma oliveira, iniciativa que teve o apoio das embaixadas de Israel, França, Alemanha, Instituto Camões, Museu do Holocausto… O diplomata Henrique Silveira Borges exerceu pressão junto da autarquia porteña conseguindo o seu cancelamento. Não se percebe se foi jactância, má-fé ou até, como disse ao Expresso o neto de Sousa Mendes, “uma forma aberta de autoritarismo”, mas a cerimónia vai ter de esperar por melhores dias.
Por melhores dias vai ter de esperar também a reabilitação pelo Exército e o Estado Português do capitão Barros Basto – os portuenses conhecem-no: foi ele que hasteou a bandeira republicana na Câmara do Porto, em 1910, foi condecorado por atos bravura durante a I Guerra Mundial, foi fundador da comunidade israelita do Porto e da sinagoga Kadoorie. Em 1937, por seu judeu, foi afastado do exército por participar em cerimónias de circuncisão e nunca o processo foi revisto. Nem depois da II Guerra Mundial (durante a qual ajudou centenas de judeus a fugir da Europa, a partir do Porto), nem depois do 25 de Abril, nem hoje. Em julho, o Ministério da Defesa respondeu, finalmente, a uma resolução aprovada no Parlamento em 2012 com vista à sua “reabilitação e reintegração no exército” mas deixa transparecer que permanecem no Exército (e portanto no Ministério da Defesa) resistências a essa reabilitação. O projeto-lei do Ministério da Defesa chega ao Parlamento fora de prazo, não está agendado, tem aqueles contras da instituição castrense, é também contrário ao que os descendentes de Barros Basto pretendiam e… o Parlamento volta a adiá-lo.

Definitivamente, não é só a época que é silly.

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