Espólio e ruínas da Fábrica de Massarelos disponíveis até ao fim de Junho

“Não esconder nada à cidade” é o propósito da RAR Imobiliária. Depois de um par de anos de escavações, caracterização e catalogação, estará até ao final do mês disponível aos portuenses a área onde em tempos foi a Fábrica de Massarelos.

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O PRIMEIRO DE JANEIRO DE 06062005, RECUPERADO VIA PORTOXXI

A RAR Imobiliária decidiu abrir até ao final do mês, a todos os interessados, as ruínas de arqueologia industrial que se encontram num terreno junto do cotovelo da Rua da Restauração. A iniciativa, que antecede a apresentação do projecto imobiliário que a empresa do Grupo RAR tem para o local, nas traseiras da horta do Palácio de Cristal, próximo de um dos topos do percurso dos “Caminhos do Romântico” e com vista para o Douro. A empresa cumpre assim a disposição decidida quando encetou os primeiros passos para a construção do empreendimento naquele espaço pertencente historicamente ao grupo, que inclui um levantamento e investigação arqueológica sobre o espólio. Ainda durante este mês, a RAR Imobiliária promete apresentar um plano de urbanização do terreno, até ao momento no segredo dos deuses.

O espaço é para a empresa de valor histórico, mas também afectivo. Foi adquirido depois do incêndio que determinou o fim da cerâmica Fábrica de Massarelos, para que a empresa que viria a resultar na RAR – Refinarias de Açúcar Reunidas, com sede na Rua de Manuel Pinto de Azevedo jr. construísse, no local, a primeira refinaria mecânica do País. “Aqui nasceu o grupo”, disse mesmo aos jornalistas o vice-presidente da empresa Sousa Botelho. A usina laborou entre 25 e 30 anos.

A primeira fábrica
Mas o grande valor arqueológico é anterior à refinaria. 1763 é o ano do primeiro documento sobre a Fábrica de Massarelos, a “primeira fábrica de produção cerâmica do país”, conforme pontuou a O PRIMEIRO DE JANEIRO o arqueólogo Ricardo Teixeira, um dos técnicos da Arqueologia & Património que ficou responsável pelo projecto de investigação patrocinado pela RAR com o apoio da Câmara Municipal do Porto, orçado em 250 mil euros.

Em 1763, a construção da monumental Fábrica de Massarelos estava já em fase adiantada, um ano antes de se ter iniciado a produção. Foi anterior às congéneres de Miragaia, ali ao lado, e à Real Fábrica do Rato, em Lisboa.

Um milhão de peças
Os vestígios, parte dos quais (estrutura e espólio recolhido) disponíveis para serem visitados no local até ao fim de Junho, permitiram reconhecer e estudar uma parte muito significativa da unidade. Apesar da construção da refinaria nos escombros da antiga fábrica, parte dos muros, dos fornos e tanques, e de uma viela, que descia da Restauração até uma das entradas, são perceptíveis.

Cartografia, fotografias aéreas e imagens computadorizadas ajudam a perceber o enquadramento do edifício e sua disposição.

Por debaixo dos escombros da refinaria, foi ainda encontrado um espólio impressionante de peças, cacos, moldes, desenhos e utensílios utilizados pela Fábrica de Cerâmica de Massarelos, espólio que ascende a um milhão de peças de um período compreendido entre a segunda metade do século XVIII e os inícios do século XX. Este material foi recolhido em cinco mil sacos para um armazém cedido pelo grupo RAR e aí limpo, tratado e catalogado de forma a poder ser estudado de acordo com a metodologia definida e, posteriormente, embalado e acondicionado para ser “digamos doado” ao Gabinete de Arqueologia Urbana da Câmara do Porto, que apoiou o projecto com uma redução da taxa de licenciamento e construção.

Investigação
O trabalho de investigação foi possível depois da demolição da vetusta refinaria. Desde logo se perceberam os vestígios da antiga fábrica de cerâmica – a primeira de várias unidades que nasceram ao longo daquela artéria, conforme adiantou a OPJ Ricardo Teixeira, e das quais sobram hoje sucessoras e destroços – ao nível do solo, nos níveis de destruição decorrentes dos incêndios e outros vestígios inferiores, estes anteriores ao incêndio e que permitiram perceber a evolução da unidade. “A demolição”, frisa o responsável, “não foi total, para não danificar qualquer dos espaços para investigar”.

Nos trabalhos “foi identificada a configuração dos edifícios mais antigos e descobertos pavimentos de várias fases, em tijoleira, tijolo ou lajeado granítico, tanques de preparação das argilas, reservatórios e canalizações de água e os próprios alicerces dos fornos oitocentistas”, explicou Ricardo Teixeira.
Para já, e apesar de o documento se encontrar há 15 anos na câmara, está no segredo dos deuses, mas não será difícil de imaginar o que poderá nascer ali, tendo em conta a localização privilegiada, o tempo que o grupo esperou para o apurar e todo o trabalho de patrimonial que o grupo demonstrou.

Do pouco que se avançou do empreendimento é que um dos edifícios ficará à cota da Rua da Restauração, que a chaminé ex-libris do local se poderá manter (ainda se lê a marca SIEL, da refinaria) e que deverá avançar-se sobre a marginal do Douro, à cota baixa.

(CAIXILHOS)
Natureza dos achados
1- Cerâmica de uso doméstico (chacota, pintadas e vidradas, com destaque neste caso para as que têm a marca da fábrica)
2- Azulejos (chacota e vidrados)
3- Utensílios do processo de fabrico
4- Matéria-prima e combustível (amostras de argila e carvão)
5- Materiais de construção da fábrica (madeiras, tijolos de vários tipos, argamassas)

Quantidade
5 mil sacos com mais de
1000000 peças/ fragmentos
Período compreendido entre a
2.ª metade do século XVIII e inícios do século XX
Há de 3 níveis:
a) desde o abandono da fábrica até à contrução da refinaria;
b) altura do incêndio
c) fases de ocupação e de evolução da fábrica

Mensagens populares