Ilustração Científica: Arte e ciência de mãos dadas
Entrevista com o desenhador e biólogo Pedro Salgado
Foram uns habitantes de Lisboa em particular, os peixes, que deram um reconhecimento internacional a Pedro Salgado. Biólogo, descobriu que o seu gosto pelo desenho poderia ser potenciado numa actividade científica e, numa crise de vocacional, acabou por enveredar pelo desenho científico. Uma área ainda pouco divulgada em Portugal, mas cujos profissionais são reconhecidos num mundo globalizado. Um deles o próprio Pedro Salgado, que desenhou o Big Fish – um ictiossauro referenciado na Grã-Bretanha – para a National Geographic sem sair de Lisboa, contactando com o editor em Washington e o paleontólogo na Escócia.
Ciência Hoje - Como decidiu partir para o desenho científico, havia alguma relação com o seu trabalho, foi antes de decidir o curso ou depois?
Pedro Salgado - Eu gostava muito de desenhar em miúdo, mas quando chegou a altura de decidir os meus estudos, optei pela Biologia, em especial a Biologia marinha – lembro-me que sempre tive uma paixão pelos peixes. Formei-me em Biologia e fiz investigação científica durante quatro anos, mas o desenho nunca foi abandonado e, pouco depois de uma crise vocacional, decidi juntar ciência e arte e fui estudar ilustração científica para os EUA.
CH - Como foi essa experiência?
P.S. - A experiencia nos EUA foi fantástica. Aprendi muito com grandes profissionais, conheci gente incrível, trabalhámos a um ritmo elevado e bem dirigido para o profissionalismo.
Desenhos para a Expo abriram portas e trouxeram prémios
CH - A melhoria das condições de trabalho na área da ciência em Portugal também se nota no caso do desenho científico? Estou-me a lembrar dos vários programas e projectos entretanto criados (centros Ciência Viva, património natural, parques naturais, etc)?
P.S. - Quando voltei para Portugal, a ilustração científica era pouco mais que uma curiosidade, quase novidade, mas pouco a pouco foi fazendo sentido para diversos interlocutores, como os que refere, como forma de expressão artística vocacionada para comunicar ciência. As ilustrações criadas por artistas sem conhecimentos científicos são, muitas vezes, incorrectas ou imprecisas para o efeito, e também é necessário maior esforço de comunicação entre cientista e artista. Nesse aspecto, há mais informação e mais opções, consoante os projectos. Tem havido melhorias.
CH - Os trabalhos que fez para a Expo'98 são citados várias vezes, pode explicar-nos como surgiu essa possibilidade e em que consistiu esse projecto?
P.S. - Os calendários com os peixes do Tejo para a Expo’98 foi um dos projectos mais gratos que fiz até hoje. No essencial, escolhi doze espécies de peixes existentes no estuário da cidade de Lisboa como se se tratasse de mostrar outros “habitantes de Lisboa”, escrevi uns pequenos textos sobre a biologia de cada um deles e dediquei cerca de um ano, a tempo inteiro, a fazer os doze desenhos. São ilustrações a tinta da china, muito rigorosas, na tradição das sofisticadas gravuras do século XIX. Seis destas ilustrações ictiológicas (de peixes) foram premiadas em exposições internacionais. Comecei a fazer as ilustrações para Oceanário dois anos antes da inauguração EXPO’98), colaboração que se mantém até ao presente. Estas foram concebidas para os painéis de identificação dos peixes, que se encontram ao lado dos tanques. Foram realizadas em aguarela, são menos complexas, mais naturais e com outros objectivos.
Maior reconhecimento e mais divulgação
CH - Desde a Expo que os locais onde que celebram a ciência natural, e sobretudo a marítima, tem surgido pelo país (do Minho ao Algarve, passando pelo Fluviário ou pela Aguda). São possíveis clientes de uma actividade que parece ter pouco mais do que um nicho num país pequeno?
P.S. - Os locais onde se celebra a ciência natural serão sempre potenciais clientes, mas não necessariamente os únicos. Podemos, por exemplo, trabalhar para um centro de investigação produzindo imagens numa linguagem muito especializada ou criar ilustrações para educação ambiental, desde a sinalética aos painéis de interpretação. Também para o mercado editorial, ou mesmo produzir ilustrações que se afastam da ciência, por opção ou necessidade. Na prática, um ilustrador científico dispõe de um considerável domínio de técnicas de ilustração (tradicionais e digitais), o que lhe permite uma boa capacidade de adaptação a outros projectos de ilustração.
CH - Mas isso não significa que haja necessariamente mercado, será por falta de fundos, das entidades que poderiam trabalhar com desenhadores de ciência ou falta de conhecimento (ou até de marketing, quem sabe)?
P.S. - Sim, há ainda bastante desconhecimento e também falta de fundos. Esperemos que ambos os problemas se possam ir resolvendo, com algum optimismo e atitude positiva. Quanto ao marketing, porque não?
Entre a arte e a ciência, com a ajuda da fotografia
CH - Qual é a grande diferença entre a fotografia e a ilustração científica?
P.S. - A fotografia reproduz a realidade, o indivíduo. A ilustração científica reproduz o “indivíduo modelo”, o representante da espécie. Além disso, interpreta, faz a reconstrução de partes danificadas ou omissas e omite partes sem importância. Codifica transparências, esquematiza estruturas, simplifica. A ilustração científica permite-nos “ver” seres já desaparecidos, espécies e paisagens de há milhões de anos, do universo e de futuros possíveis. A fotografia é indispensável para o trabalho do ilustrador científico, seja como material de referência ou como ponto de partida para uma imagem com tratamento digital. O desenho científico é uma actividade que requer uma formação equilibrada em ciência e arte. Quando uma destas facetas é frágil, o desenho dificilmente terá o rigor e a qualidade gráfica adequada a um nível profissional. Um ilustrador poderá fazer desenho científico sem se interessar e documentar pela ciência associada a cada projecto; um cientista poderá fazer desenho científico se se interessar e dominar instrumentos de expressão plástica, tradicionais e digitais.
CH - A divulgação lá fora do trabalho feito por portugueses pode ser um caminho? Pelo que percebi na pesquisa, há portugueses a trabalhar para fora e portugueses que trabalham nesta área lá fora...
P.S. - Em Portugal, temos pouco mais de uma dúzia de profissionais da ilustração científica, na generalidade de nível internacional. Também temos outros profissionais de diferentes áreas, com formação em ilustração científica que realizam projectos, ocasionalmente. E, como em outras profissões, temos ilustradores portugueses a trabalhar para o mercado nacional e também para o mercado internacional.
Hoje, é possível ter uma boa comunicação com entre as partes de um projecto, em tempo real, e pode-se estar a trabalhar com um editor ou um director de arte, a cinco mil quilómetros de distância. Por exemplo, há cinco ou seis anos, fiz umas ilustrações para a National Geographic Magazine americana e tenho um arquivo de centenas de desenhos, referências, artigos e comentários que foram realizados e trocados, por email, em trio - eu, o editor e o especialista do peixe extinto em questão. Trabalhámos juntos durante alguns meses, mas nunca nos vimos. Eu estava em Lisboa, o editor em Washington e o paleontólogo estava na Escócia.
Desenho do Big Fish feito entre Lisboa, Washington e Escócia
CH - Como surgiu essa oportunidade?
P.S. - O “big fish” – um peixe de mais de 20 metros, o maior que alguma vez existiu, extinto há 160 milhões de anos – foi o protagonista de um artigo da NGM, para o qual foi necessário fazer uma ilustração original. Só havia duas ou três representações, já desactualizadas. Contactaram-me porque tiveram conhecimento do meu trabalho com desenhos de peixes, sobretudo para o Oceanário (que foi construído por americanos, com quem trabalhei antes).
CH - E como trabalhavam?
P.S. - Por e-mail. Do lado do editor recebia instruções em termos de formato, composição e direcção de arte. Da parte do especialista recebia referências, descrições, esboços do peixe e acompanhamento nos estudos de morfologia para salvaguardar o rigor científico dos meus desenhos. Tinha de chegar a uma ilustração interessante para o editor e correcta para o ictiopaleontólogo. Um compromisso.
Claro que quando se descobrirem fósseis mais completos do "big-fish" serão popostas novas versões, diferentes da minha, actualizadas.
A experiência de desenho científico no terreno e em grupo
CH - Em Portugal desenvolveu a ideia de projecto de trabalho de campo conjunto. Como surgiu a ideia e que resultados têm sido conseguidos?
P.S. - Projecto de trabalho de campo, ou "fieldsketching", ou desenho naturalista, ou esboços no campo... Enfim, o nome não é o mais importante, interessa mais a prática, que para mim começou em 1988 quando era estudante de ilustração científica na Universidade da Califórnia, Santa Cruz. Trata-se da prática de desenho de animais, plantas e paisagem realizado no campo, em ambientes não humanizados, geralmente em parques naturais ou áreas protegidas. Leva-se um caderno de campo, diversos materiais de desenho (lápis, lápis de cor, canetas, aguarelas...), uma pequena mochila com água, comida, máquina fotográfica e binóculos, e roupa e calçado adequado. Durante umas horas, ou uns dias, passeia-se por espaços naturais com os sentidos bem despertos, parando para desenhar o que mais nos chama a atenção. São desenhos feitos em cima do joelho, por vezes durante dez ou quinze minutos, outras vezes durante duas ou três horas.
Em Dezembro de 2000, fiz uma expedição à Amazónia com um grupo de 20 pessoas (quase todos americanos), em que o objectivo principal foi desenhar. E o resultado foi muito interessante. Nos últimos anos tenho feito bastantes saídas de campo com os meus alunos, e surgiu naturalmente a ideia de trabalharmos em grupo num mesmo ambiente, tendo como resultado uma visão simultânea dos mesmos motivos, expressos em diferentes cadernos de campo, ou seja com abordagens e estilos diferentes.
Há dois anos reuni um excelente grupo de ilustradores, quase todos ex-alunos, de diversas formações de base (biologia, geologia, design, escultura), e organizámos a primeira expedição às Berlengas - primeira de uma série que pretendemos fazer nos próximos anos. Ao longo de uma semana foi desenhar de manhã à noite. Seis ilustradores, produzimos mais de duas centenas de desenhos posteriormente transformados numa exposição que tem sido montada em vários pontos do país, fazendo promoção daquele espaço natural, as Berlengas, numa visão artística com vocação de sensibilização e educação ambiental.
Entretanto, está a ser preparado um livro sobre esta expedição, a editar em breve pela Assírio & Alvim (o primeiro de uma série dedicado aos cadernos de viagem ilustrados, numa perspectiva naturalista).
Acabámos recentemente a expedição ao Douro Internacional, dividida em duas partes, uma semana na Primavera e uma semana no Outono. Será o segundo livro desta série. Temos previsto Foz Côa para antes do próximo Verão, depois Ria Formosa, Mértola e Ilhas, Madeira (Selvagens) e Canárias. A Amazónia, provavelmente, no próximo Inverno...
CH - Esteve recentemente a mostrar um pouco do seu trabalho e esse "fieldsketching"...
P.S. - Na FNAC de Santa Catarina, no Porto, dividi a apresentação em duas partes: a primeira com generalidades sobre ilustração científica (origens, aplicações, técnicas e estilos mais utilizados, etc.) acompanhadas de imagens comentadas; a segunda parte foi dedicada ao "fieldsketching" ("esboços de campo") e os "cadernos de campo", ou "sketchbook". Os resultados são diferentes da ilustração científica e também os objectivos e a atitude perante o desenho. A primeira expedição foi às Ilhas Berlengas, vai fazer dois anos, e mostrei um filme desta parte do trabalho a encerrar a sessão. A respectiva exposição já correu o país de Aveiro a Faro, e o livro será editado em breve pela Assírio & Alvim (o primeiro de uma série dedicado aos cadernos de viagem ilustrados, numa perspectiva naturalista).
Quando?
O livro, segundo o editor, será só para ofertas. Será lançado, em princípio, no primeiro trimestre de 2009.
Foram uns habitantes de Lisboa em particular, os peixes, que deram um reconhecimento internacional a Pedro Salgado. Biólogo, descobriu que o seu gosto pelo desenho poderia ser potenciado numa actividade científica e, numa crise de vocacional, acabou por enveredar pelo desenho científico. Uma área ainda pouco divulgada em Portugal, mas cujos profissionais são reconhecidos num mundo globalizado. Um deles o próprio Pedro Salgado, que desenhou o Big Fish – um ictiossauro referenciado na Grã-Bretanha – para a National Geographic sem sair de Lisboa, contactando com o editor em Washington e o paleontólogo na Escócia.
[Publicado originalmente no site CiênciaHoje.pt a 06.01.2009, recuperado graças ao Arquivo.pt]
Ciência Hoje - Como decidiu partir para o desenho científico, havia alguma relação com o seu trabalho, foi antes de decidir o curso ou depois?
Pedro Salgado - Eu gostava muito de desenhar em miúdo, mas quando chegou a altura de decidir os meus estudos, optei pela Biologia, em especial a Biologia marinha – lembro-me que sempre tive uma paixão pelos peixes. Formei-me em Biologia e fiz investigação científica durante quatro anos, mas o desenho nunca foi abandonado e, pouco depois de uma crise vocacional, decidi juntar ciência e arte e fui estudar ilustração científica para os EUA.
CH - Como foi essa experiência?
P.S. - A experiencia nos EUA foi fantástica. Aprendi muito com grandes profissionais, conheci gente incrível, trabalhámos a um ritmo elevado e bem dirigido para o profissionalismo.
Desenhos para a Expo abriram portas e trouxeram prémios
CH - A melhoria das condições de trabalho na área da ciência em Portugal também se nota no caso do desenho científico? Estou-me a lembrar dos vários programas e projectos entretanto criados (centros Ciência Viva, património natural, parques naturais, etc)?
P.S. - Quando voltei para Portugal, a ilustração científica era pouco mais que uma curiosidade, quase novidade, mas pouco a pouco foi fazendo sentido para diversos interlocutores, como os que refere, como forma de expressão artística vocacionada para comunicar ciência. As ilustrações criadas por artistas sem conhecimentos científicos são, muitas vezes, incorrectas ou imprecisas para o efeito, e também é necessário maior esforço de comunicação entre cientista e artista. Nesse aspecto, há mais informação e mais opções, consoante os projectos. Tem havido melhorias.
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| Serigrafia |
P.S. - Os calendários com os peixes do Tejo para a Expo’98 foi um dos projectos mais gratos que fiz até hoje. No essencial, escolhi doze espécies de peixes existentes no estuário da cidade de Lisboa como se se tratasse de mostrar outros “habitantes de Lisboa”, escrevi uns pequenos textos sobre a biologia de cada um deles e dediquei cerca de um ano, a tempo inteiro, a fazer os doze desenhos. São ilustrações a tinta da china, muito rigorosas, na tradição das sofisticadas gravuras do século XIX. Seis destas ilustrações ictiológicas (de peixes) foram premiadas em exposições internacionais. Comecei a fazer as ilustrações para Oceanário dois anos antes da inauguração EXPO’98), colaboração que se mantém até ao presente. Estas foram concebidas para os painéis de identificação dos peixes, que se encontram ao lado dos tanques. Foram realizadas em aguarela, são menos complexas, mais naturais e com outros objectivos.
Maior reconhecimento e mais divulgação
CH - Desde a Expo que os locais onde que celebram a ciência natural, e sobretudo a marítima, tem surgido pelo país (do Minho ao Algarve, passando pelo Fluviário ou pela Aguda). São possíveis clientes de uma actividade que parece ter pouco mais do que um nicho num país pequeno?
P.S. - Os locais onde se celebra a ciência natural serão sempre potenciais clientes, mas não necessariamente os únicos. Podemos, por exemplo, trabalhar para um centro de investigação produzindo imagens numa linguagem muito especializada ou criar ilustrações para educação ambiental, desde a sinalética aos painéis de interpretação. Também para o mercado editorial, ou mesmo produzir ilustrações que se afastam da ciência, por opção ou necessidade. Na prática, um ilustrador científico dispõe de um considerável domínio de técnicas de ilustração (tradicionais e digitais), o que lhe permite uma boa capacidade de adaptação a outros projectos de ilustração.
CH - Mas isso não significa que haja necessariamente mercado, será por falta de fundos, das entidades que poderiam trabalhar com desenhadores de ciência ou falta de conhecimento (ou até de marketing, quem sabe)?
P.S. - Sim, há ainda bastante desconhecimento e também falta de fundos. Esperemos que ambos os problemas se possam ir resolvendo, com algum optimismo e atitude positiva. Quanto ao marketing, porque não?
Entre a arte e a ciência, com a ajuda da fotografia
CH - Qual é a grande diferença entre a fotografia e a ilustração científica?
P.S. - A fotografia reproduz a realidade, o indivíduo. A ilustração científica reproduz o “indivíduo modelo”, o representante da espécie. Além disso, interpreta, faz a reconstrução de partes danificadas ou omissas e omite partes sem importância. Codifica transparências, esquematiza estruturas, simplifica. A ilustração científica permite-nos “ver” seres já desaparecidos, espécies e paisagens de há milhões de anos, do universo e de futuros possíveis. A fotografia é indispensável para o trabalho do ilustrador científico, seja como material de referência ou como ponto de partida para uma imagem com tratamento digital. O desenho científico é uma actividade que requer uma formação equilibrada em ciência e arte. Quando uma destas facetas é frágil, o desenho dificilmente terá o rigor e a qualidade gráfica adequada a um nível profissional. Um ilustrador poderá fazer desenho científico sem se interessar e documentar pela ciência associada a cada projecto; um cientista poderá fazer desenho científico se se interessar e dominar instrumentos de expressão plástica, tradicionais e digitais.
CH - A divulgação lá fora do trabalho feito por portugueses pode ser um caminho? Pelo que percebi na pesquisa, há portugueses a trabalhar para fora e portugueses que trabalham nesta área lá fora...
P.S. - Em Portugal, temos pouco mais de uma dúzia de profissionais da ilustração científica, na generalidade de nível internacional. Também temos outros profissionais de diferentes áreas, com formação em ilustração científica que realizam projectos, ocasionalmente. E, como em outras profissões, temos ilustradores portugueses a trabalhar para o mercado nacional e também para o mercado internacional.
Hoje, é possível ter uma boa comunicação com entre as partes de um projecto, em tempo real, e pode-se estar a trabalhar com um editor ou um director de arte, a cinco mil quilómetros de distância. Por exemplo, há cinco ou seis anos, fiz umas ilustrações para a National Geographic Magazine americana e tenho um arquivo de centenas de desenhos, referências, artigos e comentários que foram realizados e trocados, por email, em trio - eu, o editor e o especialista do peixe extinto em questão. Trabalhámos juntos durante alguns meses, mas nunca nos vimos. Eu estava em Lisboa, o editor em Washington e o paleontólogo estava na Escócia.
Desenho do Big Fish feito entre Lisboa, Washington e Escócia
CH - Como surgiu essa oportunidade?
P.S. - O “big fish” – um peixe de mais de 20 metros, o maior que alguma vez existiu, extinto há 160 milhões de anos – foi o protagonista de um artigo da NGM, para o qual foi necessário fazer uma ilustração original. Só havia duas ou três representações, já desactualizadas. Contactaram-me porque tiveram conhecimento do meu trabalho com desenhos de peixes, sobretudo para o Oceanário (que foi construído por americanos, com quem trabalhei antes).
CH - E como trabalhavam?
P.S. - Por e-mail. Do lado do editor recebia instruções em termos de formato, composição e direcção de arte. Da parte do especialista recebia referências, descrições, esboços do peixe e acompanhamento nos estudos de morfologia para salvaguardar o rigor científico dos meus desenhos. Tinha de chegar a uma ilustração interessante para o editor e correcta para o ictiopaleontólogo. Um compromisso.
Claro que quando se descobrirem fósseis mais completos do "big-fish" serão popostas novas versões, diferentes da minha, actualizadas.
A experiência de desenho científico no terreno e em grupo
CH - Em Portugal desenvolveu a ideia de projecto de trabalho de campo conjunto. Como surgiu a ideia e que resultados têm sido conseguidos?
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| Trabalho de campo |
Em Dezembro de 2000, fiz uma expedição à Amazónia com um grupo de 20 pessoas (quase todos americanos), em que o objectivo principal foi desenhar. E o resultado foi muito interessante. Nos últimos anos tenho feito bastantes saídas de campo com os meus alunos, e surgiu naturalmente a ideia de trabalharmos em grupo num mesmo ambiente, tendo como resultado uma visão simultânea dos mesmos motivos, expressos em diferentes cadernos de campo, ou seja com abordagens e estilos diferentes.
Há dois anos reuni um excelente grupo de ilustradores, quase todos ex-alunos, de diversas formações de base (biologia, geologia, design, escultura), e organizámos a primeira expedição às Berlengas - primeira de uma série que pretendemos fazer nos próximos anos. Ao longo de uma semana foi desenhar de manhã à noite. Seis ilustradores, produzimos mais de duas centenas de desenhos posteriormente transformados numa exposição que tem sido montada em vários pontos do país, fazendo promoção daquele espaço natural, as Berlengas, numa visão artística com vocação de sensibilização e educação ambiental.
Entretanto, está a ser preparado um livro sobre esta expedição, a editar em breve pela Assírio & Alvim (o primeiro de uma série dedicado aos cadernos de viagem ilustrados, numa perspectiva naturalista).
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| Peixes da Madeira |
CH - Esteve recentemente a mostrar um pouco do seu trabalho e esse "fieldsketching"...
P.S. - Na FNAC de Santa Catarina, no Porto, dividi a apresentação em duas partes: a primeira com generalidades sobre ilustração científica (origens, aplicações, técnicas e estilos mais utilizados, etc.) acompanhadas de imagens comentadas; a segunda parte foi dedicada ao "fieldsketching" ("esboços de campo") e os "cadernos de campo", ou "sketchbook". Os resultados são diferentes da ilustração científica e também os objectivos e a atitude perante o desenho. A primeira expedição foi às Ilhas Berlengas, vai fazer dois anos, e mostrei um filme desta parte do trabalho a encerrar a sessão. A respectiva exposição já correu o país de Aveiro a Faro, e o livro será editado em breve pela Assírio & Alvim (o primeiro de uma série dedicado aos cadernos de viagem ilustrados, numa perspectiva naturalista).
Quando?
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| Olho de Zeus |
O livro, segundo o editor, será só para ofertas. Será lançado, em princípio, no primeiro trimestre de 2009.






