O marco de Sines

[este texto não é uma reportagem, foi escrito provavelmente para um blog de música ou simplesmente para memória futura a 3 de Agosto de 2010]


Era o dia Nacional do Perú, o Perú celebra a sua independência, e a banda que eu mais gostava do primeiro dia do Festival de Músicas do Mundo de Sines, o primeiro a que fui, eram os NovaLima que tocavam às 3h da manhã. A bem dizer foi às 3h30. 

Quando saí de casa ao meio-dia, imaginei que seria uma jornada longa e dura, mas divertida. E foi. 

Não seria a primeira vez que saía para longe ver um concerto e voltava no mesmo dia, mas Sines não é Paredes de Coura, Coimbra, Aveiro, Braga, Famalicão, Figueira da Foz, Montemor-o-Velho ou sequer Vigo ou Lisboa. Sines não é sequer Setúbal, como fiz de conta pensar aquando das primeiras contas que fiz sobre esta viagem. Não, Sines é Sines.

Num Clio e a tentar poupar gasolina e portagens são seis horas. Seis horas é muito tempo, e muito tempo vezes dois porque era ir e voltar. Bem, mas ao fim e ao cabo ia ficar dez horas, 10, umas dez, pelo menos dez horas no festival que há muitos anos estava e era retirado da minha agenda pelas razões mais díspares: era o Nuno que gostava de ter férias na segunda quinzena de Julho, era estarem duas pessoas de férias, era o menino ser operado, era o avô estar doente, era ter sido despedido, era estar sem contrato e sem férias marcadas... era o fim dos motivos possíveis para não ir. Viajar doze horas para estar dez horas no festival que há anos que queria ir não era motivo. E fui. No dia Nacional do Perú.

Come-se bem em Sines, creio que é uma das primeiras coisas que devo dizer. Kebabes, bifanas, peixes e farturas, eram boas as farturas. 

A animação que, presumo, o festival desponta na zona marítima, é admirável. Creio que nunca vi tantas e tão diferentes tendas, mas é claro nos últimos anos as minhas idas a festivais têm sido furtivas, para ver concertos. 

Roupas de todos os estilos, preferencialmente oriundos do Sul do Mundo, artesanato muito diferente entre si, mas de certa forma demasiado igual ao que se vê por todas as espécies de "feiras medievais" que pululam pelo país - fazendo-me pensar que a Idade Medieval foi um longuissímo Verão. 

E depois as músicas. Só um loja de música, especialmente em música do mundo. Preços longe de ser convidativos (eram caros mesmo), mas com uma oferta variadíssima - eu tive de decidir antes de entrar o que ia comprar, para não me perder. 

Rubias del Norte
Por falar em CD: as doze horas que fizemos de carro foram sem rádio. Sem rádio, CD ou mp3, sem nada. O rádio pifou e o máximo que poderíamos conseguir era colocar o telemóvel a tocar 1Giga de música. Acabamos por não precisar. Dois camaradas têm sempre o que falar. E assim chegamos lá num instante. Seis horitas - depois de não ter seguido o caminho previsto pelo viamichelin, sem pôr roda na A1, descer as auto-estradas do Atlântico ainda sem portagem, de ter cortado por Vila Franca de Xira, de termos visto o que resta da arquitectura do Estado Novo na estrada da Marateca, de ter voltado à portagem...

As dez horas em Sines passaram a correr. Começaram com um caloroso concerto assumido pelos irmãos Vitorino e Janita Salomé com um muralha de vozes do Grupo de Cantadores do Redondo. Não sabia eu que eles cantavam textos do António Lobo Antunes, nem sabia eu que eles estavam inovando, apenas o soube agora - que li este texto - mas gostei das modas, de como paravam as modas, com gente boa e cantadeira e gente que sabia ouvir, e dançar, o cante. Para o fim de uma viagem de seis horas, num dia quente e sem rádio, é final mais do que satisfatório. 

Estava na hora de trocar bilhetes, e comprar a camisola. Li algures no Facebook que é preciso ter a camisola, e como recém-chegado à tribo dos que já foram a Sines, não quis deixar de cumprir o ritual - mesmo que consumista. Comprei a camisola e o CD duplo com os sons do ano passado - que grandes concertos houve no ano passado. 

Pelo caminho passeamos pelo centro de Sines, entre o que resta de antigas habitações de pescadores e um moderno centro cultural, entre as velhas ruas do burgo e o resplandescente comércio... de tendas e tendinhas que nasceu à beira-mar com o Verão, e o festival.

Era lá em baixo que havia um segundo concerto. Tal como o primeiro e o último concertos do dia, este era grátis. Passámos entre as tendas com bugigangas e as tendinhas com mil comes e bebes até chegar à Avenida Vasco da Gama, em cujo palco os Cacique'97 banda de "afrobeat tuga flash mocambicano" que tem como principal defeito e virtude fazer um afrobeat (tuga flash moçambique) limpinho, como o afro beat que fazem muitas outras bandas flash à volta do mundo. Já vi, já deu, fui.

Dentro do castelo começavam em breve os concertos pagos do festival. Para quem nunca foi a Sines, torna-se necessário explicar que em seis concertos - neste primeiro dia -, apenas dois foram pagos, num bilhete único de 12,5 euros. E esses concertos, no interior do castelo de Sines, são retransmitidos para o exterior, em écran gigante. 

O primeiro concerto da noite foi soberbo. Apenas a sua descrição bastaria para o classificar: "David Murray, figura central do jazz contemporâneo, um grupo de elite de músicos cubanos e uma orquestra de cordas da Escola das Artes de Sines celebram a veia latina de Nat King Cole. O cantor argentino Daniel Melingo é convidado especial de David Murray e dará voz a três canções do espectáculo." O concerto foi isto precisamente, e sentados no chão do castelo - o mestre Jazzé Duarte teve direito a cadeirinha, claro - pudemos assistir a um concerto quase único.

Depois da cuisine Murray, um excelente kebab americano. As Rubias del Norte mostraram a sua interpretação das tradições do Sul, com a sua soberba de "fazer música como ela seria hoje se a revolução rock não tivesse derrubado o poder latino de meados do séc. XX". Ainda assim, há que ver o resultado do concerto e não analisar a tese que subiu ao palco, por isso, o concerto da banda, mesmo que tenha funcionado como chill out da cuisine de mestre Murray, foi como um kebab vegetariano com boleros, cha-cha-chas, valsas peruanas, huaynos dos Andes, rancheras mexicanas, guajiras cubanas, cumbias colombianas. 

E depois veio feijoada. Foi Céu que fechou a noite de concertos no castelo e, para quem ainda não estivesse com barrigada de boa música, especialmente do continente americano, o prato veio servido com tudo. Que espectáculo é Céu em palco. Que boa banda tem. Que boa onda tem. Poderia ter encaixado melhor do que em Sines? (bem, dizem que tocou na Casa da Música ofuscando a cabeça-de-cartaz).

A loja ainda estava aberta, mas já não havia discos da Céu. Bem, havia na mesa de som. A produção da brasileira trouxe edições duplas com os dois discos de Céu. Caros. Mais barata estava a cuca e animada estava a marginal. Bute até à praia ouvir os Novalima, que já passa das três da manhã. Ao fim e ao cabo era o dia nacional do Peru, mesmo que entretanto tivesse passado da meia-noite, ainda era dia nacional do Peru. Venha daí essa batucada, venha… bem, temos é de seguir caminho.

Estamos a 500 km de casa. Na brincadeira, o companheiro de viagem ainda sugeriu que inventássemos qualquer desculpa e fossemos parar ao Algarve – já que estávamos a uma horita de lá. Sorrimos e conversamos. Já sem tanto nexo como à ida para baixo, mas com o coração mais cheio. Foram quilómetros atrás de quilómetros, áreas de serviço atrás de áreas de serviço, cafés atrás de cafés, água atrás de água, maçã atrás de maçã... Sines é um marco.

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