Código: crise

Cada vez menos os média são temidos. Eles fazem por isso

[PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO24.PT A 11052011, VIA ARQUIVO.PT]

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Não me recordo do nome ou sequer onde li o que escrevia um spin doctor, em Abril de 2009, sobre a reunião do G20 em Londres – aquela em que os estados perdoaram os milhões que bancos torraram em especulações e investimentos tóxicos, ao mesmo tempo que na rua centenas milhares de manifestantes paralisavam a City. Não me recordo do nome mas lembro-me que dizia: com as atenções concentradas na City, na polícia, na cimeira, nos banqueiros e no Obama, aquele era o momento ideal para fazer passar leis impopulares e tomar decisões controversas.

Esta frase veio-me à cabeça na semana passada, quando descobri no Twitter do Guardian que, finalmente, a justiça tinha decidido investigar a sério a morte de Ian Tomlinson, um vendedor de jornais falecido após as cargas policiais, consequentes à ocupação da City. O assunto nunca tinha ficado inteiramente esclarecido e durante 2 anos a polícia e a autópsia equacionavam apenas a possibilidade ataque cardíaco.

Por cá, por Portugal, nunca mais se falou nisso. Outros homens a morder cães ocuparam o espaço informativo, de tal forma que a notícia da reviravolta no processo – condenando o polícia por carga excessiva e processando o autor da autópsia – não mereceu sequer notícia nos principais jornais.

Sábado, quando a procurava, em português, apanhei no P24 uma outra, da Agência Lusa, que me deixou avivou memórias: “Trabalhadores da Câmara do Porto não vão poder falar aos média sem autorização“.

Conhecendo bem os atritos da Câmara do Porto com os média, não foi propriamente o título que me chamou a atenção, foi o fato de o novo “Código de Conduta dos Colaboradores do Município do Porto” ir, só agora, em Maio de 2011, à reunião do Executivo municipal.

Lembro-me de, pelo menos, 3 situações em que funcionários ligados à Câmara do Porto se viram impedidos de falar com jornalistas. Um deles é explicável, o outro está ainda em tribunal e o terceiro é absolutamente caricato: para escrever sobre uma exposição que ia ser inaugurada num equipamento cultural da CM Porto, um jornalista teve de pedir informação à responsável do mesmo, que teve de pedir autorização ao gabinete de comunicação da autarquia (que quem sabe teve de ir perguntar a…). O tempo passava e a resposta demorava. Então, o repórter decidiu contatar uma outra pessoa conhecida que trabalhava no equipamento e esta, como fonte anónima, nunca citada, passou a informação da exposição que foi notícia no jornal do dia seguinte.

Cada vez menos os média são temidos. Eles fazem por isso, como se vê no caso Tomlinson. Portanto, não faz qualquer sentido a aprovação de um código de conduta para uma conduta que já é praticada de facto se não de jure.

A truculência e a provocação da atual Câmara do Porto aos meios de comunicação social nunca foi bem explicada. Havia até quem teorizasse que aumentava significativamente com o aproximar de eleições – autárquicas, legislativas ou internas do PSD. Não faço ideia, mas talvez aquele spin doctor soubesse. Pena não me lembrar do nome para lhe perguntar.




Foi repórter, redactor e editor de “O Primeiro de Janeiro”. Repórter da revista Ideias & Negócios e editor do site Ideiasenegocios.com. Entre outros muitos trabalhos, mais independentes do que precários, colaborou com o semanário “Já” e no jornal “Ciência Hoje”. Desde 1994 que desenvolve blogues pessoais e participa em blogues colectivos (actualmente, em www.hreporter.info). Ativista do Twitter (@filintom). Jornalista, portanto, em comissão de serviço (que é como quem diz "a ganhar a vida") no comércio. Ao mesmo tempo de esquerda e liberal, provavelmente realista. Odeia mentira e hipocrisia. Ex-benfiquista, porque se recusa ir ao Estádio de Luz para ver futebol. Amante de música, sobretudo a que o surpreende. Plantou árvores, escreveu um livro a meias e é pai.

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