Eu, tu, ele

Não vou gastar o espaço a analisar a necessidade de regionalizar ou de alterar a política fiscal ou sequer sobre o jornalismo no Porto e a importância do sobrevivente “Jornal de Notícias”

[PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO24.PT A 19052011, RECUPERADO VIA ARQUIVO.PT]

José Sócrates diz que estão todos contra ele. E tem-no dito de tal forma que a cada dia que passa mais gente parece estar contra ele. Ou a assumir-se. Menos os que não estão contra ele, que começam cada vez mais a ficar a favor dele. Ou a assumir-se.

Desde a demissão do Governo que, a cada 4 dias, os partidos da oposição vêm colocar o líder do PS fora da solução política do país do pós-5 de Junho: primeiro o PSD, depois o CDS, na semana passada o BE e, segunda-feira, o PCP. Desde a demissão do Governo que o PS tem subido nas sondagens, numas atrás do PSD, noutras não, mas sempre em empate técnico.

As pessoas são mais facilmente avaliadas do que os partidos e se o caráter vem para análise ainda é mais fácil. Temos há já longo tempo um processo de fulanização em curso. De tal forma que é muito mais complicado analistas, jornalistas e comentadores, e quiçá eleitores, lidarem com o coletivo Bloco de Esquerda ou o coletivo PCP do que com o uno PP de Paulo Portas. Talvez por isso o PS de José Sócrates e o CDS de Paulo Portas estejam a subir nas sondagens e os coletivos BE, PCP e (os vários) PSD desçam.

Aproveitando a lição retirada deste raciocínio sobre a atualidade política e comunicacional – por outras palavras, das declarações e reações do José, do Pedro, do Paulo, do… – não vou gastar o espaço a analisar a necessidade de regionalizar ou de alterar a política fiscal ou sequer sobre o jornalismo no Porto e a importância do sobrevivente “Jornal de Notícias”, agora com nova e alargada direção – e a obrigatória mudança de grafismo. Não, prefiro concentrar-me nas pessoas e pedir à nova direção do JN que defenda melhor os seus colaboradores, nomeadamente os que são despudoradamente atacados nas páginas do próprio jornal. Personalizando, de novo, Manuel António Pina.

No passado dia 26 de Abril, o bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, escreveu um artigo no JN em resposta ao que diz serem (lá está) “ataques pessoais”, que “desde 2005″ Manuel António Pina contra ele “desfere” – na coluna que publica de segunda a sexta-feira.

No artigo de opinião, o bastonário usa o termo cretino 9 vezes, diz que Pina “bolça sentenças”, é “medíocre”, “megalómano”, “intelectualmente desonesto”, tem “postura canina”, entre vários outros. A violência verbal foi de tal forma inusitada que Manuel António Pina se viu obrigado a utilizar o seu próprio espaço de crónica (uns míseros 1200 caracteres) para reclamar do JN: “o bastonário Pinto saltou ontem as barreiras (todas, incluindo as do JN, onde, que me lembre, foi a primeira vez que, nos 40 anos que levo de casa, se deu guarida à castiça arte do insulto)”.

E, recorde-se, isto passou-se no periódico que teve, e bem, a coragem de negar a publicação de um artigo a uma figura televisiva reconhecida como Mário Crespo por o seu texto ir contra a prática noticiosa do jornal.

Por isso, fulanizo: defendam o Manuel António Pina. Quero que qualquer nova sessão de distribuição de t-shirts motivada por um cronista do “Jornal de Notícias” aconteça pela sua escrita, reconhecida com o prémio Camões, e não porque ele ainda não foi “processado pelo Sócrates”. É, os que estão contra ele, fazem parecer que ele está contra todos.

Nota: Manuel António Pina também não foi “processado pelo Sócrates“.


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