No silêncio da Igreja
Devíamos passar mais tempo em igrejas, sejamos ateus, católicos, pagãos, agnósticos ou muçulmanos. No silêncio pensamos melhor.
[PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO.24 A 21072011, RECUPERADO EM ARQUIVO.PT]
Devíamos passar mais tempo em igrejas, sejamos ateus, católicos, pagãos, agnósticos ou muçulmanos. Eu sou suspeito, visto que passo mais tempo em igrejas, e em mais igrejas, do que qualquer católico não devoto, mas de qualquer forma creio que faríamos muito bem em aproveitar esses monumentos que encontramos ao pé de casa ou do emprego.
Sábado, estive cerca de meia hora numa igreja, lembrando um conhecido ausente, eu com a minha memória. E tentando tirar partido de todas as situações, conforme aprendi com ele, pensei que as igrejas não precisam de ser local de recolhimento apenas para católicos-confessos em datas marcadas ou em horas determinadas, ou para ruidosos turistas em calções e de flash em punho. Também não pensei que pudessem vir a ser, como na Idade Média, novamente abrigos em época de invasão (apesar da troika e da Moody’s) e de tempestades (apesar da chuva de verão), apenas queria que parássemos um bocadinho para pensar, de vez em quando.
Se por acaso os jornalistas na News Corp., os seus editores, os seus diretores e os seus administradores parassem um bocadinho, de vez em quando, numa capela de uma abadia, observando os vitrais e escutando o silêncio, percorrendo a sua agenda e os seus atos de cada hora, talvez não estivéssemos hoje no meio deste escândalo que se levantou por causa das escutas, nem a nossa intimidade se sentiria tão mal-tratada. Nem o jornalismo estaria de tal forma posto em causa.
Se os políticos que, durante anos, andaram de arrufo de namorados ou de pseudo-namoro com essas e outras publicações do universo do dono da Faux News, Wall Street Journal e Myspace não tivessem fechado os olhos mas antes fossem apreciar os frescos de uma igreja ortodoxa e enquanto pensavam sobre dessa relação contra-natura, talvez não estivéssemos hoje a sentir pena pela forma como Gordon Brown e o seu filho foram expostos.
Em Portugal, muitos políticos também entraram nesse jogo. Talvez se se tivessem acalmado um bocado e aos seus “instintos políticos” (ou Oliveira da Figueira), trocando o convívio na loja ou no restaurante de hotel por um espaço em silêncio, teriam percebido facilmente o que se levantava. Hoje, aconselharia estes espaços de recolhimento para os comentadores que explicam tudo o que este Governo decide da mesma forma que criticavam tudo o que o anterior fazia (ou não fazia), pode ser que no silêncio se lembrem do que disseram.
Aconselharia também uma visita à igreja mais próxima aos que andam preocupados com as escutas telefónicas por terceiros. Há muito que se sabe que as igrejas são locais de encontro ideais para troca de informações confidenciais, e teria piada ver o ministro da Defesa e o dos Negócios Estrangeiros a conversar sobre a cimeira da NATO num confessionário da Sé de Lisboa, com o Le Carré à porta, de guarda-chuva. Eu admito que estou a delirar um bocadinho, mas depois de ler a notícia do jornal Sol, de sexta-feira, segundo a qual “ministros têm medo de falar ao telemóvel“, creio estar perdoado. E lembro-me que quando foram colocadas notícias em jornais selecionados sobre eventuais escutas à Presidência da República, notícias que viriam a ser desmentidas pelo próprio Presidente da República, alegando contrariamente que tinha problemas de segurança mas no email, para sustentar a minha lucidez e a incredulidade com os receios dos ministros.
No silêncio pensamos melhor. Mesmo que não haja credulidade cristã ou divina, mesmo que o nosso deus seja outro, o recato de uma igreja ajuda-nos a estar mais próximo da reflexão. No sábado, quando me distraíram do que ia fazer à igreja, matutei no banco lá do fundo: que tipo de pessoas poderiam pensar num país como Portugal, e depois de tudo o que se passou com o Cavaco Silva, que haverá escutas telefónicas? E respondi a mim próprio “pessoas que tenham a mania da perseguição” ou pessoas que poderiam mandar o SIS investigar um cidadão sem motivo aparente.
Que a razão, ou deus, os proteja.
