Apresentação de O Tintureiro Francês, de Paulo Larcher

O livro que temos hoje para apresentar é o primeiro de uma nova coleção da arrojada editora Saída de Emergência. Para quem trabalha com livros, a Saída de Emergência é desde logo a referência a nomes como George Martin e a sua Guerra dos Tronos, e referência também por outras apostas, ao início arriscadas, mas seguras, que entretanto resultaram em sucesso de leitores. Embora aparentemente compartimentada na área da chamada – com todos os erros que se podem apontara à designação – literatura de fantasia, a editora lançou uma nova coleção, denominada «A História de Portugal em Romances».

Ora, esta coleção começa de uma forma auspiciosa com «O Tintureiro Francês». O livro conta a história da chegada a Portugal de um tintureiro, francês, que o fascinante Marquês de Pombal espera possa vir a revolucionar a incipiente indústria têxtil portuguesa, ainda antes da erupção da revolução científica europeia e da revolução industrial, mas já depois do terramoto de 1755.

Tratados os vivos e enterrados os mortos, e tal como aconteceu noutros momentos da nossa história, o poderoso ministro de D. José queria que o país deixasse de ser deficitário nas importações e que criasse uma indústria, a chamada regeneração industrial, a par do reforço da agricultura e da vinha, e das pescas.  A menina dos seus olhos, e a alavanca da indústria de tecidos, seria a Real Fábrica de Panos, onde a Coroa havia investido.

Mas para conseguir que os panos portugueses dessem o salto, e começassem a ser consumidos pelos portugueses da metrópole e do território ultramarino, era necessário que tivesse qualidade.  De uma forma que o livro de Paulo Archer nos apresenta, o Marquês consegue cativar um polémico tintureiro, Stéphane Larcher, um iluminado francês, que chegado ao nosso país revoluciona práticas e comportamentos e consegue trazer à luz nos tecidos portugueses cores que lhes eram ofuscadas até então.

Num misto de ficção pura, inclui a criação de duas personagens centrais do livro, Teresa e José de Magalhães, e de fidelidade histórica que alcança alguns pormenores inesperados para o leitor de romances históricos, O Tintureiro do Rei consegue fugir do que podia ser uma monografia sobre uma personagem interessante – e desconhecida – da história portuguesa, para no fundo lhe dar vida. Uma vida a par com outras personagens que marcaram a sociedade portuguesa da época, de forma mais do indelével, mesmo polémica.

E se há personagem que marcou o nosso século das luzes foi o Marquês de Pombal e a revolução de mentalidades que ele representou. E não revolução de mentalidades sem a sua dose de polémica. E Stéphane Larcher encaixa nessa revolução. E se do marquês temos muito informação, do Tintureiro francês ela é residual. Paulo Larcher consegue através da sua criação e da sua escrita, dar verosimilhança a um romance de época, o que é em si um feito de notar. Mas, mais do que isso, é um romance bem construído, que a seu tempo explana e esconde para cativar o leitor, guiando-nos para o final que ele quer contar.

O leitor que não espere, contudo, uma leitura compulsiva, rápida, o Tintureiro Francês de Paulo Larcher convida-nos a apreciar detalhes, a notar roupas, mobiliário, gestos e paisagens. Envolve-nos com os seus diálogos e descrições para contar uma história, de um tintureiro que queria ir para as Américas e acabou por deixar o coração em Portugal.

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