Descobrir-nos entre nós
Hoje, reabilitado Barros Basto, criada a Rede de Judiarias e olhando localmente para os eventos e o trabalho realizado ou assimilado pela Comunidade Israelita do Porto, parece que os passos dados então estão a dar frutos.
PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO24, 09072014, RECUPERADO VIA ARQUIVO.PT
PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO24, 09072014, RECUPERADO VIA ARQUIVO.PT
Nunca será em demasia destacar o papel dos judeus na sociedade portuguesa, e do Porto, antes da Inquisição. Assim como, para a nossa História comum, nunca poderá ser olvidada a vida dos judeus marranos (obrigados a converter-se ao cristianismo), que se mantiveram em Portugal depois do édito de D. Manuel. E que mantiveram no anonimato as suas práticas mesmo depois do Marquês de Pombal, mesmo depois do fim da Inquisição e depois do advento da República. Na primeira metade do século XX, o descendente de marranos Barros Basto iniciou a sua maior obra: resgatar a memória destes cripto-judeus sefarditas portugueses e espanhóis impedidos de serem judeus e recuperar os praticantes ou os seus descendentes para a sua fé, aberta e viva. A guerra que lhe foi movida e a falta de apoio que teve impediu que esse fito fosse totalmente alcançado. Contudo, outro projeto seu é mais conhecido e hoje corporiza a valia e a perseverança dos judeus em Portugal, e no Porto, e esse é a sinagoga Mekor Haim (“Fonte de Vida”), na rua de Guerra Junqueiro.
Embora não haja um modelo de sinagoga – cumprindo os preceitos, a sinagoga pode ser em qualquer prédio e foi, em diferentes geografias e épocas, em casas particulares –, a Mekor Haim é impactante e a maior da Península Ibérica. Chamada “Kadoorie” em honra dos benfeitores que financiaram a sua instalação, é um edifício modernista, despojado de artifícios exteriores (que não os essenciais para a identificar como local de convivência judaica) e com linhas simples. A volumetria chama a atenção porque Barros Basto pediu aos arquitetos Augusto dos Santos Malta e Arthur de Almeida Jr. que o espaço fosse suficiente para ter todas as valências de uma sinagoga – a biblioteca, a sala de estudo, a mikvá, dois pisos, para homens e mulheres, etc – e que fosse um referente arrojado e visível para os descendentes dos marranos. Chegou a ser chamada “A Catedral do Norte”.
Nos últimos anos, em diferentes ocasiões, a Sinagoga foi sendo aberta à população, com visitas guiadas, apresentações de livros e de filmes. Já este ano, em Março, a Comunidade Israelita do Porto decidiu ir mais longe e lançou, finalmente, um panfleto com o Roteiro Judaico da cidade, essencial numa altura em que o Porto tem um incremento de turistas como nunca teve e em que Portugal parece ter encontrado o caminho para rentabilizar (se falarmos comercialmente) ou resgatar (se falarmos patrimonialmente) as suas judiarias, com a criação e alargamento de uma rede, como acontece com tão bons resultados em Espanha. Também em Março, foi apresentado na sinagoga o livro “Judeus Ilustres de Portugal”, de Miriam Assor. O livro não esquece Barros Basto, mas coloca a sua figura no capítulo dedicado a Moses Amzalak. Para o conhecermos melhor, portugueses e portuenses, talvez o melhor seja ler o livro de Alexandre Teixeira Mendes “Barros Basto, A Miragem Marrana” ou “Ben-Rosh, Uma biografia do capitão Barros Basto, o apóstolo dos marranos”, de Elvira Mea e Ignácio Steinhardt. No mês passado, a Sinagoga voltou a ser aberta para a apresentação do livro “A Rota dos Judeus do Porto”, como que reafirmando que nenhuma rota pelo Porto deve esquecer os judeus e a Mekor Haim.
Em 2007, no âmbito de uma reportagem que tinha como referente a Jornada Europeia da Cultura Judaica, conheci várias pessoas da Comunidade Israelita do Porto, da Ladina e o então rabino Eliezer Shai. “Os portuenses tiveram uma comunidade judaica de ouro, que hoje em dia se conhece muito pouco, bem como sobre os judeus em Portugal… e é uma pena”, disse-me então. Hoje, reabilitado Barros Basto (em 2012), criada a Rede de Judiarias e olhando localmente para os eventos e o trabalho realizado ou assimilado pela Comunidade Israelita do Porto, parece que os passos dados então estão a dar frutos. A sinagoga reabre-se, há lançamento de livros e a cidade reconhece-se na memória dos seus marranos e nos seus judeus. Dizia-me, então, o italiano Eliezer Shai que tinha tido dificuldades em perceber a cultura portuguesa (e marrana) com “esse medo que gerava distância e desconfiança”. Em 2014, esse medo parece cada vez mais distante.
