O Jornalismo e a criação do Novo Banco
Neste momento, este é aparentemente o menor dos nossos males mas de certa forma ajuda a explicar como chegamos 'aqui', e porque vamos continuar 'aqui'.
O caso BES bom versus BES mau (por causa do BES vilão) vem provar uma série de coisas sobre o sistema flibusteiro em que vivemos e ainda uma outra coisa: Temos boa Comunicação, e boa Comunicação de Controlo de Danos (ou PR Damage Control), e precisamos (mais) de bom Jornalismo.
A boa Comunicação é inúmeras vezes inimiga do bom Jornalismo. Os meios para fazer Comunicação são os mesmos que se usam no Jornalismo; o bom Jornalismo precisa de boa Comunicação; o bom Jornalismo e a boa Comunicação coincidem muitas vezes; a boa Comunicação ajuda quase sempre o bom Jornalismo; muitos dos bons profissionais de Comunicação foram jornalistas, alguns deles bons jornalistas.
Contudo, há uma diferença essencial - pensei muito sobre ela, pois foi essa diferença que me impediu ao longo dos anos que estive no Jornalismo, a tentar fazer bom Jornalismo, de seguir o caminho da Comunicação -, e essa diferença é o objetivo.
O objetivo do bom jornalista não é o mesmo do bom comunicador. Quando coincidem é excelente, o público do jornalista, que coincide com o do comunicador, fica a ganhar. Quando o objetivo dos dois não coincide - been there, inclusive quando o assessor era meu amigo - o jornalista tem de escolher o seu público, em detrimento do comunicador, da fonte ou até da informação que lhe vai parar às mãos.
Parece fácil mas não é. E a fragilidade do lugar do jornalista na sociedade e no negócio da informação torna a decisão ainda mais difícil, em detrimento do público.
Usar uma boa informação, de uma boa fonte, mesmo que o jornalista não possa questionar essa informação, mesmo que o jornalista tenha a noção de que está a ser manipulado, deixa-o numa posição, apesar de tudo, mais cómoda do que recusar essa informação ou contraditá-la, caucionando a informação, ou denunciando a fonte.
Já não parece tão fácil, certo? Raramente acontece. No que realmente importa, muito raramente acontece. A fonte, o comunicador ou o seu cliente (ou patrão) sobe na hierarquia do meio de comunicação social até a informação ser aceite como boa e não questionada, ou liga para o vizinho.
Ontem à noite, a "conferência de imprensa" do governador do Banco de Portugal foi "sem direito a perguntas": Logo, não era uma conferência de imprensa era um comunicado, lido às 22h53 de um domingo de Agosto (estão a ver o PR Damage Control?). Os jornalistas assistiram, talvez para tentar perceber se quando Carlos Costa disse "não terá qualquer custo para o erário público e nem para os contribuintes" haveria ali um piscar de olhos conotativo...
Antes, durante o fim-de-semana, o ministério das Finanças terá explicado individualmente, via telefone, a alguns comentadores a engenharia financeira que estava a ser desenhada para o Novo Banco. Esta ação não é de todo original, já desde, pelo menos, o tempo de Vítor Gaspar que comentadores e jornalistas são individualmente convidados para aparecer no ministério para terem umas lições sobre o que o país precisa e o que o governo vai fazer.
O pé-de-microfone e o comentador-repetidor não encaixam com a minha noção de bom Jornalismo.
Ontem às 22h53, como a maioria dos portugueses estava a preparar-me para dormir. Não ouvi nada de Carlos Costa ou dos comentadores de serviço. Hoje de manhã, quando comecei a procurar os resultados da comunicação ao país, recebi-os sobretudo no meu mural do Facebook e da timeline do Twitter, ou seja, dos concidadãos, dos amigos, dos críticos, dos comediantes. Também não é bom jornalismo mas pelo menos não é o mother sucking damage control.
Links
Decreto-Lei n.º 114-B/2014
O caso BES bom versus BES mau (por causa do BES vilão) vem provar uma série de coisas sobre o sistema flibusteiro em que vivemos e ainda uma outra coisa: Temos boa Comunicação, e boa Comunicação de Controlo de Danos (ou PR Damage Control), e precisamos (mais) de bom Jornalismo.
A boa Comunicação é inúmeras vezes inimiga do bom Jornalismo. Os meios para fazer Comunicação são os mesmos que se usam no Jornalismo; o bom Jornalismo precisa de boa Comunicação; o bom Jornalismo e a boa Comunicação coincidem muitas vezes; a boa Comunicação ajuda quase sempre o bom Jornalismo; muitos dos bons profissionais de Comunicação foram jornalistas, alguns deles bons jornalistas.
Contudo, há uma diferença essencial - pensei muito sobre ela, pois foi essa diferença que me impediu ao longo dos anos que estive no Jornalismo, a tentar fazer bom Jornalismo, de seguir o caminho da Comunicação -, e essa diferença é o objetivo.
O objetivo do bom jornalista não é o mesmo do bom comunicador. Quando coincidem é excelente, o público do jornalista, que coincide com o do comunicador, fica a ganhar. Quando o objetivo dos dois não coincide - been there, inclusive quando o assessor era meu amigo - o jornalista tem de escolher o seu público, em detrimento do comunicador, da fonte ou até da informação que lhe vai parar às mãos.
Parece fácil mas não é. E a fragilidade do lugar do jornalista na sociedade e no negócio da informação torna a decisão ainda mais difícil, em detrimento do público.
Usar uma boa informação, de uma boa fonte, mesmo que o jornalista não possa questionar essa informação, mesmo que o jornalista tenha a noção de que está a ser manipulado, deixa-o numa posição, apesar de tudo, mais cómoda do que recusar essa informação ou contraditá-la, caucionando a informação, ou denunciando a fonte.
Já não parece tão fácil, certo? Raramente acontece. No que realmente importa, muito raramente acontece. A fonte, o comunicador ou o seu cliente (ou patrão) sobe na hierarquia do meio de comunicação social até a informação ser aceite como boa e não questionada, ou liga para o vizinho.
Ontem à noite, a "conferência de imprensa" do governador do Banco de Portugal foi "sem direito a perguntas": Logo, não era uma conferência de imprensa era um comunicado, lido às 22h53 de um domingo de Agosto (estão a ver o PR Damage Control?). Os jornalistas assistiram, talvez para tentar perceber se quando Carlos Costa disse "não terá qualquer custo para o erário público e nem para os contribuintes" haveria ali um piscar de olhos conotativo...
Antes, durante o fim-de-semana, o ministério das Finanças terá explicado individualmente, via telefone, a alguns comentadores a engenharia financeira que estava a ser desenhada para o Novo Banco. Esta ação não é de todo original, já desde, pelo menos, o tempo de Vítor Gaspar que comentadores e jornalistas são individualmente convidados para aparecer no ministério para terem umas lições sobre o que o país precisa e o que o governo vai fazer.
O pé-de-microfone e o comentador-repetidor não encaixam com a minha noção de bom Jornalismo.
Ontem às 22h53, como a maioria dos portugueses estava a preparar-me para dormir. Não ouvi nada de Carlos Costa ou dos comentadores de serviço. Hoje de manhã, quando comecei a procurar os resultados da comunicação ao país, recebi-os sobretudo no meu mural do Facebook e da timeline do Twitter, ou seja, dos concidadãos, dos amigos, dos críticos, dos comediantes. Também não é bom jornalismo mas pelo menos não é o mother sucking damage control.
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Decreto-Lei n.º 114-B/2014
