Porto é hype? I hope not

Lembro-me tão bem de 2001, e do pós-2001, que temo que esta atitude dos poderes públicos e privados redunde num novo período depressivo da cidade. O Porto é mais do que o turismo. E esperemos que esta coisa do Porto sexy não seja um hype.

[PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO24.PT A 17032015, RECUPERADO VIA ARQUIVO.PT]

Gosto do Porto que não tem a ciclotímica mania de ser o melhor e o pior do mundo. Gosto do Porto que leva a sua avante apesar de autarcas vazios, governos ausentes e empresários gulosos. E que usa adversativas: porém, contudo, todavia… O Porto que se mexe apesar das circunstâncias.

A vitória de Rui Moreira significou uma mudança de ar na cidade. De repente, os portuenses (incluindo os que tinham apoiado Rui Rio) conseguiam respirar e nem o ar cinzento do burgo, a bruma, o nevoeiro ou a chuva pareciam oprimir tanto. A chegada à câmara de um homem com mundo parecia refletir o mundo que o Porto recebia diariamente porta adentro, magotes de turistas que descobriam a cidade que amamos. Talvez um alemão chamasse a esta conjugação Weltanschauung. Ou talvez não.

Entre a movida de bares e restaurantes, circuitos de bicicleta e segways, hotéis, hotelitos e hoteletes foram despontando eventos, saraus e acontecimentos. Desde então, não há mês em que o Porto não apareça numa qualquer revista, jornal ou blogue internacional como o best spot para, sei lá, um fim de semana gastronómico ou uma escapadinha cultural; numa lista das melhores pequenas cidades românticas, dos McDonalds mais bonitos, dos cafés mais charmosos, das livrarias mais monumentais… You name it!

Faz bem à autoestima mas, por vezes, parece que voltamos a 2001, lembram-se? Seríamos a nova Barcelona, uma Bordéus mais prá-frentex (quando prá-frentex ainda era uma expressão cool e não envelhecida). Enquanto uma parte da cidade enchia palcos e museus, e o Porto e as suas personalidades mais reconhecidas apareciam nas revistas internacionais, uma outra parte descobria apenas formas de contornar a crise permanente, alguns até para encontrar um sítio onde dormir, fazer ligação direta de eletricidade ou descobrir um emprego.

E como me lembro bem da Capital Europeia da Cultura, estranho que Rui Rio, que foi eleito precisamente em 2001, tente reclamar para si esta nova movida do Porto e chateia-me que a Câmara e o Governo e os empresários famosos tentem fazer o mesmo. Não tenho gráficos para o fundamentar, mas tenho a certeza que o sucesso do Porto está mais nos desconhecidos que resistiram, que arriscaram e que acreditaram nos tempos da bruma. Nos bares, nos cafés, nos teatros, enfim, na sua vidinha do dia a dia.

Lembro-me tão bem de 2001, e do pós-2001, que temo que esta atitude dos poderes públicos e privados redunde num novo período depressivo da cidade. O Porto é mais do que o turismo. E esperemos que esta coisa do Porto sexy não seja um hype. Se for, o que se espera dos poderes públicos é que tratem das prioridades, de resolver aquilo que só eles podem. E deixem que os portuenses continuarão, invictos, a dar volta. Como nos tempos de bruma, com copulativas ou adversativas.

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