Tempos Modernos

Na indústria que em princípio mais depende desse turismo, a hotelaria, não há mais empregos fixos ou salários mais altos. E continuam os contratos precários, a tempo parcial ou com turnos de mais de dez horas, como acontece em muitas daquelas lojas orientais.

[PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO24.PT A 11092015, RECUPERADO VIA ARQUIVO.PT]

Passear na Baixa é uma delícia. Muita gente com pinta seja bonita ou feia, gente de diferentes cores e de diferentes estilos, de olhos rasgados ou de cabelos loiros, com sandálias por cima de meias brancas ou com chinelos de marca e calças arregaçadas de marca e camisa branca de marca, com gestos muito estudados ou completamente destrambelhados.

Quem se lembra como era o centro há meia dúzia de anos tem de ficar impressionado ao ver funcionários dos serviços de limpeza a apanhar uma beata perdida, de ver seguranças aos pares na Estação de S. Bento, mais, ver polícias aos pares no local, ou de assistir a taxistas simpáticos enquanto abrem a porta àqueles turistas todos.

Enquanto os visitantes vêm ao Porto para ver a cidade e as suas gentes, cada vez mais tipificadas e menos típicas, gosto de descer à cidade para ver os turistas e perceber como eles a estão a transformar.

E, talvez influenciado pelo ciclo de cinema dedicado a Jacques Tati (que começou esta semana no Teatro do Campo Alegre e se prolonga até ao final do mês), ao passear na Baixa parecia que estava a assistir a “Playtime – Vida Moderna” do genial realizador francês, com o design dos novos restaurantes e hotéis do Porto, impessoalmente confortáveis, aproximando-se do retrato admirado e irónico que o filme faz da arquitetura modernista repetitiva dos Anos 1960 e com as novas tecnologias móveis a substituírem-se ao contacto entre as pessoas, tal como acontece na película.

Na zona da Sé, um grupo de duas dezenas de turistas francesas, encarreiradas, todas de impermeáveis transparentes esbranquiçados, calções e sapatilhas, entram organizadamente numa loja amontoada de souvenirs “made in” Extremo Oriente, que tinha um daqueles termómetros digitais de mesa indicando Sol e 21 graus de temperatura ambiente às sete da tarde – no meio de galos de Barcelos que envergonhariam António Ferro, cerâmicas de contornos inenarráveis, samovares e relógios “de marca”.

Em S. Bento assisti a um verdadeiro gag que poderia ser retirado desse filme: uma turista oriental entra no átrio da estação, vinda da rua da Madeira, suspira com aquele deslumbre de azulejaria enquanto percorre com o olhar as paredes e o teto; saca da máquina fotográfica que tem ao ombro, dispara uma dúzia de vezes e encaminha-se para a primeira porta da entrada principal, para a praça Almeida Garrett. À saída, puxa o telemóvel do bolso e faz uma selfie. Esteve lá dentro durante dois a três minutos, no máximo, e continua o passeio.

O turismo está mesmo a mudar o Porto, e os estudos indicam que o aumento do turismo significa diminuição do desemprego. Contudo, os números mais recentes do INE, de julho, indicam que no Norte o desemprego desceu em relação a 2012 mas subiu em relação ao mês anterior. E na indústria que em princípio mais depende desse turismo, a hotelaria, o aumento do volume não terá implicado empregos fixos ou salários mais altos, segundo o sindicato do setor. E continuam os contratos precários, a tempo parcial ou com turnos de mais de dez horas, como acontece em muitas daquelas lojas orientais. E essa imagem do Tempos Modernos de Charlot não pode ser compatível com a Vida Moderna do Porto.



Foi repórter, redactor e editor de "O Primeiro de Janeiro", repórter da revista "Ideias & Negócios" e editor do site Ideiasenegocios.com; entre outros trabalhos, mais independentes do que precários, colaborou com o "Já" e o "Ciência Hoje". Jornalista, portanto, em comissão de serviço (que é como quem diz "a ganhar a vida") no comércio de livros. Adora o Porto e quer escrever sobre ele, sobretudo.


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