Não calar Calais
A UE está em crise porque está a ser governada por pouco escrupulosos “passadores de homens” que querem deixar os europeus em França, a aldeia. Cabe-nos a nós denunciá-los e lutar para dar o salto.
Em Portugal, temos obrigação de conhecer bem os migrantes e as suas histórias. Nos Anos 1960 e 1970, houve a grande vaga fugindo do país, da guerra, da miséria e da falta de liberdade; nos Anos 1970 foram as famílias que regressaram de África, fugidas da guerra, da descolonização ou dos seus medos; hoje ei-los que partem de novo, os amigos e os familiares, nesta que é a maior vaga de emigração.
Apanhei com a (nova) crise dos emigrantes de Calais depois de passar em França, a aldeia. Conheço histórias rocambolescas de amigos e familiares emigrados mas nenhuma delas se aproxima às que nos chegam de Calais. Mas perceber aquele cenário não será muito difícil. Se recorrermos à memória coletiva basta pensarmos nas imagens e nas histórias dos portugueses que estiveram nos bidonvilles parisienses nos anos 1960 e 1970.
Contudo, em Calais, a juntar ao ambiente de bidonvilles, do século XXI, vamos ter – dentro da Europa unida – as mesmas redes de segurança, cães, polícias e muros que há em Ceuta e Melilla, e com o apoio financeiro da União Europeia. A mesma UE que está em crise, verdadeiramente em crise, depois do cemitério do Mediterrâneo, da chantagem e humilhação da Grécia, um dos seus estados-membros, da benevolência amorfa face à Hungria e da aleatória e inconsequente política exterior comum, entre outros exemplos.
A crise da União Europeia deriva da prática política corrente, não da sua génese. Quem permite Calais são os dirigentes europeus subjugados a interesses nacionais, e aos interesses eleitorais do momento, que se dão ao luxo de esquecer (ou fazer esquecer), por exemplo, que o Tratado da União sustém que esta se “funda nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade” e “do respeito pelos direitos do Homem”. Quem geriu o caso grego, por outro lado, foi um “um grupo informal que não está vinculado a Tratados ou a regras escritas”, conforme disse o seu “presidente” Dijsselbloem, contrariando o preâmbulo dos tratados quando este escreve “a união baseia-se nos princípios do Estado de Direito, ou seja, todas as medidas tomadas pela UE assentam em tratados”.
A UE não está em crise por ser uma ideia de aprofundamento da união entre países, com políticas comuns, a UE está em crise porque está a ser governada por pouco escrupulosos “passadores de homens” que querem deixar os europeus em França, a aldeia. Cabe-nos a nós – que não somos nem foragidos nem analfabetos – denunciá-los, dispensá-los e lutar para que consigamos dar o salto, para o ideal europeu. E que ele continue a atrair imigrantes.
PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO24, RECUPERADO VIA ARQUIVO.PT
Nestas férias precisei de fugir da atualidade, da crise grega, do aluguer de Serralves e da Livraria Lello, fui passear nos parques naturais do Norte e acabei em França, não França-país mas França-aldeia, a norte de Bragança, no Montesinho. Conta a lenda que em França (não France), alguns “passadores de homens” menos escrupulosos deixavam foragidos analfabetos que tentavam passar a salto a fronteira na margem do rio Sabor: “Do outro lado é França, paguem”. Não era, era Portugal, ultramontano mas Portugal. Mesmo que não seja verdade, é uma lenda interessante.Em Portugal, temos obrigação de conhecer bem os migrantes e as suas histórias. Nos Anos 1960 e 1970, houve a grande vaga fugindo do país, da guerra, da miséria e da falta de liberdade; nos Anos 1970 foram as famílias que regressaram de África, fugidas da guerra, da descolonização ou dos seus medos; hoje ei-los que partem de novo, os amigos e os familiares, nesta que é a maior vaga de emigração.
Apanhei com a (nova) crise dos emigrantes de Calais depois de passar em França, a aldeia. Conheço histórias rocambolescas de amigos e familiares emigrados mas nenhuma delas se aproxima às que nos chegam de Calais. Mas perceber aquele cenário não será muito difícil. Se recorrermos à memória coletiva basta pensarmos nas imagens e nas histórias dos portugueses que estiveram nos bidonvilles parisienses nos anos 1960 e 1970.
Contudo, em Calais, a juntar ao ambiente de bidonvilles, do século XXI, vamos ter – dentro da Europa unida – as mesmas redes de segurança, cães, polícias e muros que há em Ceuta e Melilla, e com o apoio financeiro da União Europeia. A mesma UE que está em crise, verdadeiramente em crise, depois do cemitério do Mediterrâneo, da chantagem e humilhação da Grécia, um dos seus estados-membros, da benevolência amorfa face à Hungria e da aleatória e inconsequente política exterior comum, entre outros exemplos.
A crise da União Europeia deriva da prática política corrente, não da sua génese. Quem permite Calais são os dirigentes europeus subjugados a interesses nacionais, e aos interesses eleitorais do momento, que se dão ao luxo de esquecer (ou fazer esquecer), por exemplo, que o Tratado da União sustém que esta se “funda nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade” e “do respeito pelos direitos do Homem”. Quem geriu o caso grego, por outro lado, foi um “um grupo informal que não está vinculado a Tratados ou a regras escritas”, conforme disse o seu “presidente” Dijsselbloem, contrariando o preâmbulo dos tratados quando este escreve “a união baseia-se nos princípios do Estado de Direito, ou seja, todas as medidas tomadas pela UE assentam em tratados”.
A UE não está em crise por ser uma ideia de aprofundamento da união entre países, com políticas comuns, a UE está em crise porque está a ser governada por pouco escrupulosos “passadores de homens” que querem deixar os europeus em França, a aldeia. Cabe-nos a nós – que não somos nem foragidos nem analfabetos – denunciá-los, dispensá-los e lutar para que consigamos dar o salto, para o ideal europeu. E que ele continue a atrair imigrantes.
