Educação para a… o exame
Uma boa educação para a cidadania podia permitir aos telespectadores – e aos jornalistas e aos seus editores – descartar a importância de uma pizza e dos seus ingredientes.
[Publicado originalmente no Porto24.pt a 25092015, recuperado via Arquivo.pt]
Esta semana fui à apresentação do novo ano escolar do meu filho. Tal como acontece desde o 5.º ano, quando se chegou ao tema da Educação Cívica (agora Educação para a Cidadania) ouvi a ladainha de apresentações anteriores: “o tempo será utilizado para tirarem dúvidas de outras disciplinas, para falarem com o diretor de turma ou para estudarem”. Já desisti. Nos primeiros anos, e em escolas diferentes, questionei se essa subversão fazia sentido mas resignei-me. Por momentos, na reunião, ainda me lembrei de reclamar que podiam usar esse tempo (esses 45 minutos) para debater o sistema eleitoral, ensiná-los a contrastar a realidade televisiva com o seu dia a dia, perceber o tema dos refugiados, o que significa ser solidário e… “ainda por cima”, prossegue o professor interrompendo o meu raciocínio, “este ano temos os exames e todos os momentos são bons para estudar”.
Sim, os exames são importantes, tão importantes que as crianças deixam de o ser, deixam de ser adolescentes que começam a ser cidadãos para se transformarem desde cedo em máquinas pressionadas para resultados, que no futuro darão seguramente obedientes estudantes e profissionais. Ou desempregados ou emigrados, claro.
Quando apareceu, a Educação Cívica poderia ser uma excelente arma para transformar e melhorar a sociedade. Se bem se lembram, ela surgiu ao mesmo tempo que uma série de outras mudanças ditas civilizacionais apareciam no debate público e político português: o aborto, a presença da Igreja Católica no protocolo de Estado, a legalização das drogas leves e, entre outros, a igualdade de todos os cidadãos, fosse qual fosse o credo, a cor ou a orientação sexual.
Hoje, a duas semanas das eleições parlamentares e com uma boa parte dos temas eleitos nas conversas sobre política e nas conversas dos políticos parecem escolhidos de propósito para confundir ou desviar os eleitores de questões essenciais, penso que todos devíamos ter tido aulas de educação cívica.
Uma boa educação para a cidadania podia permitir aos telespectadores – e aos jornalistas e aos seus editores – descartar a importância de uma pizza e dos seus ingredientes, escarnecer da análise (literalmente) ao milímetro da fotografia do jantar do ex-primeiro-ministro tirada enquanto este via o debate entre Passos Coelho e António Costa e desvalorizar o ímpeto de saber “quem ganhou o debate”, esse ou qualquer um dos outros debates. Uma boa formação cívica poderia permitir aos eleitores separar o que é ruído e o que é importante num frente a frente onde Justiça, Educação ou Europa foram temas arredados, e eventualmente chegarem à conclusão que ninguém ganhou o debate.
Numa altura em que o vice-primeiro-ministro cataloga a mulher como fada do lar, em que há uma alteração à lei da Interrupção Voluntária da Gravidez que visa pressionar as mulheres, em que se joga futebol no dia das eleições (e o Presidente da República mal fala do assunto), em que as misericórdias e outras instituições religiosas vão ter a cargo os cuidados continuados de saúde mental e em que os métodos contracetivos e as doenças sexualmente transmissíveis saem das metas curriculares, os 45 minutos de Educação para a Cidadania eram preciosos.
Uma vez que não consigo ajudar o meu filho a ter boa nota no exame de Matemática, prometo dar-lhe aulas particulares de Educação para a Cidadania. Façam o mesmo.
Foi repórter, redactor e editor de "O Primeiro de Janeiro", repórter da revista "Ideias & Negócios" e editor do site Ideiasenegocios.com; entre outros trabalhos, mais independentes do que precários, colaborou com o "Já" e o "Ciência Hoje". Jornalista, portanto, em comissão de serviço (que é como quem diz "a ganhar a vida") no comércio de livros. Adora o Porto e quer escrever sobre ele, sobretudo.


