Billy Bragg: Falando com os punks sobre o Brexit
Talvez fosse inevitável: o Brexit foi um dos temas de debate da principal conferência desta segunda-feira do encontro Keep it Fast Make it Simple, que visa recordar e estudar os impactos do movimento punk, nascido em Inglaterra nos anos 1970.
[PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTO24 A 19072016, VIA ARQUIVO.PT]
Durante o período de perguntas e respostas das intervenções de um dos convidados mais conhecidos desta edição do evento, Billy Bragg (na foto), o recente referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia misturou-se entre as considerações e reflexões sobre o punk e uma das suas máximas, o Do it Yourself, ou Faça você Mesmo.
O autor de “Talking with the Taxmen About Poetry” e um dos músicos mais identificáveis com a música de intervenção anglo-saxónica defendeu que o referendo não deve ser repetido e que o resultado, a saída da União Europeia, deve ser aceite, e trabalhar a partir daí. “Temos 48 por cento do copo meio cheio”, afirmou, justificando a votação pelo Brexit em parte porque as pessoas se sentem desligadas dos partidos que controlam o sistema político britânico e quando tiveram a hipótese de expressar diretamente a sua opinião fizeram-no também contra o sistema.
Billy Bragg, que no dia em que se conheceram os resultados atuava no principal festival rock de Inglaterra, o Glastonbury, afirmou ter sentido nesse momento no público perante o qual atuou que havia pessoas que “acordaram a pensar que já não viviam no seu próprio país, que eram estranhos na sua própria terra”, e então o concerto acabou por ser uma comunhão, “não no sentido religioso mas no sentido de que eles eram, eramos todos, os primeiros a sentir o mesmo em conjunto naquele dia. Criou-se um ambiente muito especial e percebi que, nesse concerto, tinha de fazer sentir às pessoas que não estavam sozinhas”.
“Já não penso que a música possa mudar o mundo”, afirmou Bragg, lembrando que as pessoas que querem mudar o mundo já não precisam hoje da música para transmitir a mensagem – como aconteceu nas décadas finais do século XX. “A nossa rede social era a música”, afirma. Contudo, disse depois de recordar o concerto para 1200 pessoas numa tenda de Glastonbury, “em último caso, pode ser a audiência a mudar o mundo. São os que estão ali no escuro da audiência que podem mudar o mundo, não nós em palco”.
A conferência de Bragg centrou-se no paralelismo entre o punk e o primeiro rock britânico, nos anos 1950, cujo surgimento e impacto o músico tem estudado. Coincidindo com as primeiras gravações de Elvis nos Estados Unidos e relacionado com o fim do racionamento do pós-guerra em Inglaterra e o cinema, o Skiffle foi o movimento que introduziu a guitarra como instrumento principal na música pop britânica e que acabou por se tornar popular, apesar de os discos não passarem na rádio, de os concertos serem fora das salas convencionais, de os seus encontros criarem tumultos e a própria criação de instrumentos… entre 15 e 20 anos antes do aparecimento dos Sex Pistols a gritar «No Future» e antecipando o Do it Yourself, um dos temas centrais do Kismif deste ano.
A conferência Keep it Simple Make it Fast prossegue esta terça-feira coma abertura de uma exposição de Esgar Acelerado, uma conferência de Don Letts, e terminado com um concerto no Rivoli e dj set do mesmo Letts. Programa completo aqui.

