Todos iguais, todos diferentes

Naquele que foi o momento mais aceso do 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses, dois camaradas, certos da sua razão, perdiam as estribeiras e levantavam a voz por uma questão regimental de como deveriam ser discutidas e votadas na plateia do Cinema São Jorge as 50 propostas de resolução que foram elaboradas e entregues ao longo dos cansativos três dias do encontro.

Da discussão dos dois, separados por cinco ou seis filas de cadeiras, surgiram apoios e apupos, pedidos da mesa e a intervenção de dois históricos do jornalismo português, que acabaram por serenar as vozes dos intervenientes, encontrando uma solução de compromisso. De entre as cinco dezenas de propostas de resolução que foram votadas durante toda a tarde de domingo encontrava-se uma subscrita pelos dois. Porque começo com esta curiosidade? Porque, no momento mais aceso do encontro, dois congressistas discutiam um formalismo sem que isso implicasse deixarem de se entender no essencial, nomeadamente na fusão de uma proposta de resolução.

A primeira resolução a ser votada, saída da organização do congresso e melhorada com propostas da sala, foi aprovada por unanimidade. É virada para fora, lembra a importância do jornalismo como pilar da democracia, o perigo da perda de credibilidade e reitera o compromisso do cumprimento pelos jornalistas do Código Deontológico; para dentro, denunciando e exigindo mudança nas condições de trabalho, reforço da autorregulação e afirmação da responsabilidade do jornalista na redação, nas entidades reguladoras e estruturas de classe; e demonstra a preocupação com a educação e a literacia mediática. Um bocado mais do que um mínimo denominador comum, não?

Não se pode dizer que os jornalistas estavam todos representados naquele congresso — não estariam em nenhum –, mas isso não o diminui. Aliás, dois dias antes da abertura oficial, as inscrições esgotaram. Apesar da taxa de desemprego, dos baixos salários, de todas as situações de precariedade, que ali se debateram, ou por causa disso mesmo, o São Jorge encheu. Desempregados, precários, freelancers, contratados, estabelecidos…

Claro que não foi perfeito. Faltou uma discussão mais profunda sobre o financiamento, por exemplo, e a aparente falta de entendimento da classe sobre que caminhos se podem trilhar. Podiam e deviam ter sido discutidos exemplos de sucesso e de fracasso, as cooperativas, as empresas de jornalistas (ainda ontem nasceu um novo projeto em França, o Explicite)… Para lá de qualquer discussão ideológica, o financiamento – a viabilidade económica do Jornalismo — é a melhor forma de garantir a independência e a liberdade dos jornalistas.

Como desempregado, ou freelancer, gostava de ver esse ponto debatido, como gostava de ter visto mais participação no debate sobre a imprensa regional. Faltou maior debate, faltou interesse do Congresso nesse debate. E se é certo, como foi ali dito, que a imprensa regional é imprensa, que o jornalismo regional é Jornalismo, não deixa de ser também verdade que as questões de escala e de proximidade colocam problemas completamente diferentes. E se alguns deles, até a questão do financiamento, foram colocados galhardamente pela Marta Caires, Carlos Cipriano, Pedro Jerónimo e Joaquim Martins, entre outros, também foi certo o desinteresse de boa parte dos jornalistas no Congresso.

Durante este painel, recordei-me de algumas das críticas feitas à classe, e ao 4.º Congresso. Muitas delas partem do princípio que todos os jornalistas são iguais, que todos auferem grandes salários e têm muitas mordomias e influência. Ora, como demonstraram ali os relatos da imprensa de fora de Lisboa e, genericamente, o inquérito realizado pelo ISCTE, em parceria com o Sindicato dos Jornalistas, jornalistas não são todos iguais, nem todos diferentes. Como nenhuma classe o é. Não se pode pensar que todos os jornalistas ganham bem com base no que ganha um pivot de telejornal, da mesma forma que não se pode pensar em todos os jornalistas como não tendo escrúpulos, por haver pés-de-microfone ou quem viole (sem interesse público) o segredo de justiça. Nem todos os jogadores de futebol ganham tanto como o Ronaldo, nem todos os jogadores de futebol partem as pernas aos adversários como Roy Keane.

E houve vários exemplos de que os jornalistas são diferentes entre si e são capazes fazer auto-crítica. Dois, do Congresso: as intervenções de José Pedro Castanheira (através de Adelino Gomes) “O senhor não me mace!” e a de António Marujo “Sobre o futebol e outros suicídios do jornalismo (ou como jornalistas e católicos são tão parecidos)”. De fora do Congresso: três dos textos publicados no livro “A crise do jornalismo em Portugal”, sob a chancela do incansável Le Monde Diplomatique; um crítico, de José Goulão, sobre a falta de sentido crítico no noticiário internacional; um reflexivo, de Jacinto Godinho, debruçando-se sobre a pertinência da divulgação de imagens do terror; e um desmistificador, do professor Vasco Ribeiro, acerca da relação dos jornalistas com as suas fontes.

Para desmistificar, será bom também ler outro livro, lançado no segundo dia do Congresso: “Tudo por uma boa história – Confidências e relatos de jornalistas portugueses”, iniciativa do Sindicato dos Jornalistas, editado pela Esfera dos Livros.

[PUBLICADA ORIGINALMENTE NO PORTO24.PT a 18012017, via Arquivo.pt]


Foi repórter, redactor e editor de "O Primeiro de Janeiro", repórter da revista "Ideias & Negócios" e editor do site Ideiasenegocios.com; entre outros trabalhos, mais independentes do que precários, colaborou com o "Já" e o "Ciência Hoje". Jornalista, portanto, em comissão de serviço (que é como quem diz "a ganhar a vida") no comércio de livros. Adora o Porto e quer escrever sobre ele, sobretudo.

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